Recente
campanha coloca em questão qual o limite entre o assédio e a violência sexual
Foto: Divulgação
No mês de setembro foi divulgada uma campanha
contra o assédio sexual conhecida como "Chega de Fiu-Fiu". O conteúdo
apresentou grande repercussão em variados veículos, contendo relatos de
mulheres de diferentes faixas etárias sobre a abordagem dos homens nas ruas e
suas reações. Medo, susto, indignação, desespero e raiva são alguns dos
sentimentos dessas vítimas.
Um recente caso de assédio aconteceu na primeira semana de
outubro, em que o Brasil se chocou com o relato de uma jovem do Rio de Janeiro.
Segundo informações do G1, Anne Melo, 20 anos, foi detida ao xingar um policial
militar que a chamou de gostosa. A jovem conta que se revoltou e respondeu à
abordagem e que vários moradores do Bairro de Fátima assistiram à cena e se
indignaram com as atitudes dos policiais. Enquanto isso, a moça era levada à
delegacia dentro do camburão, injustamente. O vídeo pode ser assistido na
internet através do link: http://www.youtube.com/watch?v=AL4rZCutWaI
O assédio é um ato perturbador, que desmoraliza a mulher, causando
medo, raiva, desespero e deixando-as sem saber como reagir. Infelizmente, não
existe uma lei que puna o ofensor. Enquanto isso, várias pessoas do sexo
feminino passam por situações traumatizantes, sem ter para onde recorrer e
buscar ajuda.
A Secretaria da Mulher de Londrina oferece o serviço público do
Centro de Referência e Atendimento à Mulher (CAM). As mulheres que buscam o CAM
recebem um atendimento e quando existe violência física são urgentemente
encaminhadas à Maternidade Municipal Lucila Balallai através do serviço da
Secretária da Saúde conhecido como Programa Rosa Viva.
“As violências de cunho sexual passam pela parte psicológica e não
recebemos denúncias de assédio. O que chega até nós são as denúncias de
violência física, sexual, psicológica e patrimonial” informa Patricia Raboni,
gerente de apoio à mulher no CAM.
Com os freqüentes casos de assédio, a vice diretora da Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB) e também da Comissão Mulher Advogada da OAB, Vânia
Queiroz afirma que a mulher está sendo desvalorizada com as atuais propagandas
com excesso de exposição do sexo feminino. Músicas, comerciais e roupas
insinuantes fazem com que homens ignorantes sintam-se no direito de assediar e
perder o respeito com as mulheres.
A coordenadora da Comissão de Estudos sobre violência contra a Mulher no
Paraná na OAB , Dra. Sandra Lia, conta que ela mesma evita passar na frente de
uma construção no bairro Santa Felicidade de Curitiba, para evitar
constrangimentos. Sandra, que é engajada em lutas femininas e no direito da
mulher, afirma que ainda não foi encontrado nenhum projeto estadual em relação
ao tema.
A dimensão dos assédios é tão grande que reflete
no dia a dia de muitas mulheres, em todos os lugares. Não são poucas que deixam
de ir a certos destinos, para evitar situações, cruzam caminhos diferentes e
também pensam na escolha da roupa antes de sair para evitar
aborrecimentos.
Esses acontecimentos colocam em pauta o direito
da mulher, qual o limite entre a violência e o assédio? Para onde a mulher tem
que recorrer em casos do tipo e qual a liberdade do homem em relação à classe
feminina.
Relatos de mulheres que sofreram com o assédio
Segue alguns depoimentos de moças da cidade de Londrina que
sofreram situações de assédio que levaram ao medo, desespero e até ao trauma
Andressa Gongora: 23
anos, estudante de Relações Públicas
“Passei por dois acontecimentos recentemente que me deixaram
quieta, intimidada e hoje com medo e incrédula na polícia brasileira.” Andressa
conta que indo para a academia, com roupa de ginástica, foi assediada por um
carro com quatro policiais perto da Avenida Higienópolis, às 16 horas. Segundo
a estudante de relações públicas, os policiais estavam com a arma para fora do
carro e gritavam “gostosa” e também “ai, se eu te pego”.
A outra ocasião, também no período da tarde, a jovem passou
na frente do Batalhão da Avenida Santos Dumond, onde novamente foi assediada e
desrespeitada. Para Andressa, hoje fica difícil acreditar nos policiais.
Bruna Lombardi: 20 anos, estudante de História
“Quando eu tinha uns 9 anos, eu tava descendo pra casa da minha
avó que era umas 4 quadras pra baixo da minha, e parou um fusca do meu lado com
um cara pedindo informação, eu, ingenuamente, fui. O indivíduo estava sem
roupas, expondo o pênis e fortemente me puxou pela janela para dentro do carro.
Lembro que foi chamado a policia, foi feito a queixa, mas não encontraram o
homem e ficou por isso.”
Bruna confessa que ficou desesperada, que ainda era uma menina e
nada entendia a respeito. A partir de então, começou a questionar o sexo e ter
dúvidas que antes não a incomodavam.
D. :21 anos, estudante
de Psicologia
Ela lembra até o dia, 12
de janeiro de 2011. E conta detalhadamente o episódio em que até hoje a
traumatiza.
“Era noite, eu estava
dentro de um ônibus de Campinas voltando para Londrina. Um policial veio do meu
lado e perguntou se poderia sentar ali, eu disse que sim. Ele puxou assunto
comigo, por mais de uma hora e começou a elogiar meu corpo. Falava que era
professor de educação física e me apalpava, passando a mão por de baixo de minha
roupa. Fingia que ia me algemar, pegava minha mão e me obrigava a colocar de
baixo de sua farda, dizendo que era para eu pegar em sua pistola. Ele percebeu
que eu estava assustada e em choque e ele se aproveitou e ainda me ameaçou a
não gritar e não falar nada, pois ele tinha uma arma. Consenti e fiquei
quieta.”
Segundo D. seus pais
foram fazer a denúncia e ela teve medo de ir junto. Medo de ser encontrada,
raiva dos policiais e mal estar em se humilhar contando o que aconteceu com ela
para um oficial.
A vítima ainda conta que
nunca ninguém o encontrou porque policiais de estrada não mostram passagem para
entrar no ônibus.
Marcela Nardo: 23 anos, fisioterapeuta
“Com 12 anos eu fui ao mercadinho do lado de casa e um homem me
seguiu de carro, me chamando. Eu fingia não escutar e continuava andando. Ele
parou do meu lado para pedir informação, perguntando qual era o nome daquela
rua. Eu respondi, apontei a placa na esquina e ele pediu pra eu chegar mais
perto, perguntando se eu já tinha visto aquilo. O homem colocou o órgão sexual
para fora e tentou me puxar para perto do carro, eu me afastei e sai
desesperada”.
Marcela conta que o porteiro de seu prédio afirmou já ter visto o
tal homem na região, rondando e assediando meninas na rua.
A fisioterapeuta relembra com raiva outra situação em que um homem
a seguia na rua. Assustada ela atravessou e ele foi correndo atrás dela para
depois, se aproximar e apertar os seus seios. A reação de Marcela foi dar um
soco no estômago do homem, o que o deixou assustado e o fez sair embora
correndo.

