quinta-feira, 16 de maio de 2013

O amor por uma vida voltada a arte


                     



Os hippies surgiram e se espalharam em meados da década de 60 com o movimento da contracultura, com idéias: de paz, liberdade e um grande apreço pela natureza. Uma vida mais natural, simples, com valores de amor ao próximo, exaltação à natureza, paz e tranqüilidade na alma. Estar à margem da atual sociedade, contornando um caminho de luxo, capitalismo, hipocrisia e máscaras, faz parte da realidade dessa comunidade.
  Apesar dos ideais e da busca pela harmonia, os mais naturalistas  sofrem de preconceitos, algumas vezes não sendo levados a sério e enfrentando muitas pessoas que os encaram com estranheza e desaprovação.
  Usamos o termo hippie para definir pessoas que trabalham com artesanato e possuem um visual alternativo e despojado, como cabelos e barbas compridas, “dreads”, alargadores e muitos ornamentos. As roupas normalmente são velhas e rasgadas e em alguns casos coloridas, fazendo apologia a psicodalia.
  Normalmente encontramos os hippies no centro das cidades, em feiras no meio de outros vendedores ambulantes, entre lojas e mais artesãos e produtores. São pessoas livres, desapegadas que vivem em um meio de cultura e música. Uma feira ao ar livre, com homens, mulheres, crianças e sempre muitos curiosos e apreciadores da arte ao redor das bancas.
  Em um passeio pelo calçadão londrinense, tenho o prazer de conhecer o artesão Onofre. Vende seus trabalhos manuais e recebe educadamente todos que se aproximam de sua tenda banca no calçadão de Londrina. Quando me apresento, o senhor de 65 anos abre um sorriso e diz há anos não escutar um nome tão bonito quanto Georgia. Carismático, me convida a sentar e fica contente ao saber que quero escutar suas histórias. Descubro que aquele é o dia do seu aniversário, mas o presente foi meu. Uma conversa que será memorizada e possibilitou o meu maior entendimento da vida de um artesão e suas dificuldades.
  Desde 1969 trabalhando com artesanato, Onofre diz sentir-se muito alegre quando tem seus trabalhos elogiados. O artesão explica: “Lidar com um povo é uma parte muito alegre do meu dia, ver vários tipos de pessoas, tratá-las igualmente bem e ser reconhecido pelo meu trabalho não tem preço”. Apesar de ser bem tratado por grande parte da população, Onofre revela ser mais procurado por pessoas de classe média, enquanto a classe alta e a classe baixa, normalmente não vão atrás de suas manufaturas. “Toda vez que ando de ônibus, sinto uma discriminação de alguns que estão dentro do transporte. Essas pessoas de classe mais baixa olham feio e ficam longe quando me vêem chegar” conta o senhor.
  Antes de viver para o artesanato, trabalhou durante seis anos como tintureiro químico, gostava dos amigos e do ambiente de trabalho, mas não fazia o que lhe proporcionava prazer. Começou o artesanato e provou a liberdade em 1969, no Embu das Artes, um município de Itapecerica da Serra (SP) que ficou conhecido por acolher artistas. Era necessário passar por um teste para poder comercializar e expor seus produtos nas feiras da cidade. O artesão era selecionado pela prática, criatividade, habilidade e peças exclusivas. Onofre foi um dos escolhidos e ficou ali por felizes anos. Logo depois, mudou-se para São Paulo capital expor e vender na Praça da República.
  Em um período de transição e mudanças, o artesão deixa a Praça da República e caminha a Londrina, Paraná, onde conta ter se chateado no primeiro mês. Explica que o encaminharam à delegacia, suspeitando de sua conduta. Chegando lá, foi detido e tratado como um vagal. “O delegado ria, fazia perguntas ridículas sobre o que seria um artesão, o que um artesão afinal faz... fui mal tratado e obrigado me retirar da cidade em três dias.” Da delegacia foi direto arrumar suas coisas. Onofre volta a São Paulo e permanece por lá durante quatro anos.
  Passados quatro anos, o artesão retorna às terras londrinenses e por aqui finca suas raízes. Ao chegar, Antonio Belinati era o atual prefeito da cidade. Segundo Onofre, era uma gestão tranqüila para os hippies. Conta que Belinati tinha respeito pelo trabalho de todos, sem limitar os direitos e faltar com educação ao pessoal da paz e do amor. Nesse período os artesãos participavam de uma associação chamada “Uniflor”, assistindo palestras, reuniões e eventos conduzidos pela Secretária da Cultura.
  Onofre declara: “Antigamente era a Secretária da Cultura que comandava e nos ajudava, hoje é a COMURB (Companhia de Urbanização), que nos deixou cair no esquecimento.” O simpático senhor, relembra saudosamente a época em que recebeu a carteirinha de associação ao PRODAP (Programa de Desenvolvimento do Artesanato) e se sentiu extremamente grato ao receber esse apoio e reconhecimento.
  Em nosso bate-papo lhe pergunto um nome importante para o artesanato no Brasil, ele me responde com clareza e satisfação: “Getúlio Vargas!” Relata que em seu mandato, o presidente do Brasil apóia a cultura, os artesões e autoriza a livre exposição de trabalhos manuais em qualquer lugar da rua.
  Onofre confessa possuir outra grande paixão, a qual também foi apoiada e engrandecida por Vargas, a capoeira. O ex-presidente menciona a capoeira ser o único esporte verdadeiramente nacional. Responsável pela criação da “Capoeira Regional Baiana”, Manoel Machado dos Reis, conhecido como Mestre Bimba é um dos melhores capoeiristas da época e com certeza, o grande ídolo de Onofre, o artesão. Como bom conversador, a capoeira entra em pauta e descubro outro dom do senhor. Praticante desde os 43 anos, conta que sempre há mais o que aprender e os mestres sempre têm o que ensinar. Sem ter idade para praticar e sentir-se vivo, Onofre treina semanalmente em um salão no bairro Santo Amaro na cidade de Londrina.
  Além de lutar a modalidade extremamente brasileira, produz berimbau e afirma ser o único produtor do norte paranaense.  O produtor enfatiza a importância de preservarmos e só pegarmos aquilo que nos será útil. “A natureza fornece toda a matéria prima, sem que eu precise cortar as árvores”, Onofre comenta e ressalta fazer sempre o possível para contribuir com a vida do nosso planeta.
  Filho de pai músico, escuta reggae, Bezerra da Silva e Janis Joplin para relaxar. Onofre aponta suas peças e me pergunta se reconheço uma imitação. Digo que poderiam me enganar facilmente, pois meus olhos brilham pra todas as peças, sem saber qual é feita a mão e qual é industrializada. O senhor ri e me responde: “Moça, os leigos só descobrem uma imitação ao comprá-la e ter a peça estragada em poucas vezes de uso. O que não acontece com a produzida a mão.” Descubro que na Bahia existem maravilhosas peças, que deveriam ser exportadas para conhecerem nossa riqueza lá fora. Assim como acontece no Peru, que é o país que mais investe em exportação e desde cedo incentiva as crianças a aprenderem a produzir.
  Apaixonado pela arte e pelo seu trabalho, friza a importância em sua vida quando conta não beber e não fumar, para não inverter os valores e correr o risco que a arte perca seu espaço para vícios e outras coisas.
  Um senhor com muito amor pela arte e pela vida que sabe reconhecer os jovens aventureiros , que  de passagem produzem e vendem artesanatos. “São descompromissados, não respeitam a natureza e não amam o que fazem” diz Onofre, diferenciando uns aos outros.
  O artesão se incomoda com hippies que fumam maconha em local público, pois generalizam todos eles, dando motivos para outras pessoas reclamarem. Sendo o entrevistado, contra a legalização de drogas e também contra o próprio uso, afirma: “A nóia mata os jovens, destrói as famílias. Sou contra passeatas, legalização... começa na maconha e acaba no tráfico.” Fiquei surpresa e contente com suas afirmações, afiadas e prontas para romper qualquer rótulo que muitos possuem dos “ripongas” e naturalistas.
  Aos seus sete anos de idade, o artesão começou a trabalhar com seu pai na lavoura de café. Onofre acredita que seu pai foi sensato e colaborou muito com sua futura independência e as experiências em sua vida.  “A criança deve se mexer, aprender e ajudar de maneira saudável, sem que a prejudique e sobrecarregue. Se um pequeno não estiver aprendendo coisas boas, coisas ruins ele saberá” diz o artesão, de forma poética.
   Para o simpático senhor, é muito cômodo os jovens continuarem roubando, utilizando drogas, perdendo os limites e matando, enquanto os empregos de juízes, policiais, delegados são mantidos. Onofre acredita na impossibilidade de mudanças enquanto o mais importante for o dinheiro, vindo primeiro do amor, da saúde, do respeito e da paz.
   Com seus 65 anos, o agradável senhor que estudou até a oitava série, tem o grande sonho de memorizar sua paixão pelo artesanato e pela capoeira em um livro. Durante um dia ao lado de um grande artista, pude sentir a felicidade e gratificação de um homem que vive pela arte e sempre está para aprender e conhecer mais do que a vida pode ensinar.

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