Os hippies surgiram e se
espalharam em meados da década de 60 com o movimento da contracultura, com
idéias: de paz, liberdade e um grande apreço pela natureza. Uma vida mais
natural, simples, com valores de amor ao próximo, exaltação à natureza, paz e
tranqüilidade na alma. Estar à margem da atual sociedade, contornando um
caminho de luxo, capitalismo, hipocrisia e máscaras, faz parte da realidade
dessa comunidade.
Apesar dos ideais e da busca pela harmonia, os mais
naturalistas sofrem de preconceitos, algumas vezes não sendo levados a
sério e enfrentando muitas pessoas que os encaram com estranheza e
desaprovação.
Usamos o termo hippie para definir pessoas que trabalham com
artesanato e possuem um visual alternativo e despojado, como cabelos e barbas
compridas, “dreads”, alargadores e muitos ornamentos. As roupas normalmente são
velhas e rasgadas e em alguns casos coloridas, fazendo apologia a psicodalia.
Normalmente encontramos os hippies no centro das cidades, em
feiras no meio de outros vendedores ambulantes, entre lojas e mais artesãos e
produtores. São pessoas livres, desapegadas que vivem em um meio de cultura e
música. Uma feira ao ar livre, com homens, mulheres, crianças e sempre muitos
curiosos e apreciadores da arte ao redor das bancas.
Em um passeio pelo calçadão londrinense, tenho o prazer de
conhecer o artesão Onofre. Vende seus trabalhos manuais e recebe educadamente
todos que se aproximam de sua tenda banca no calçadão de Londrina. Quando me
apresento, o senhor de 65 anos abre um sorriso e diz há anos não escutar um
nome tão bonito quanto Georgia. Carismático, me convida a sentar e fica
contente ao saber que quero escutar suas histórias. Descubro que aquele é o dia
do seu aniversário, mas o presente foi meu. Uma conversa que será memorizada e
possibilitou o meu maior entendimento da vida de um artesão e suas
dificuldades.
Desde 1969 trabalhando com artesanato, Onofre diz sentir-se muito
alegre quando tem seus trabalhos elogiados. O artesão explica: “Lidar com um
povo é uma parte muito alegre do meu dia, ver vários tipos de pessoas,
tratá-las igualmente bem e ser reconhecido pelo meu trabalho não tem preço”.
Apesar de ser bem tratado por grande parte da população, Onofre revela ser mais
procurado por pessoas de classe média, enquanto a classe alta e a classe baixa,
normalmente não vão atrás de suas manufaturas. “Toda vez que ando de ônibus,
sinto uma discriminação de alguns que estão dentro do transporte. Essas pessoas
de classe mais baixa olham feio e ficam longe quando me vêem chegar” conta o
senhor.
Antes de viver para o artesanato, trabalhou durante seis anos
como tintureiro químico, gostava dos amigos e do ambiente de trabalho, mas não
fazia o que lhe proporcionava prazer. Começou o artesanato e provou a liberdade
em 1969, no Embu das Artes, um município de Itapecerica da Serra (SP) que ficou
conhecido por acolher artistas. Era necessário passar por um teste para poder
comercializar e expor seus produtos nas feiras da cidade. O artesão era
selecionado pela prática, criatividade, habilidade e peças exclusivas. Onofre
foi um dos escolhidos e ficou ali por felizes anos. Logo depois, mudou-se para
São Paulo capital expor e vender na Praça da República.
Em um período de transição e mudanças, o artesão deixa a Praça da
República e caminha a Londrina, Paraná, onde conta ter se chateado no primeiro
mês. Explica que o encaminharam à delegacia, suspeitando de sua conduta.
Chegando lá, foi detido e tratado como um vagal. “O delegado ria, fazia
perguntas ridículas sobre o que seria um artesão, o que um artesão afinal
faz... fui mal tratado e obrigado me retirar da cidade em três dias.” Da
delegacia foi direto arrumar suas coisas. Onofre volta a São Paulo e permanece
por lá durante quatro anos.
Passados quatro anos, o artesão retorna às terras londrinenses e
por aqui finca suas raízes. Ao chegar, Antonio Belinati era o atual prefeito da
cidade. Segundo Onofre, era uma gestão tranqüila para os hippies. Conta que
Belinati tinha respeito pelo trabalho de todos, sem limitar os direitos e
faltar com educação ao pessoal da paz e do amor. Nesse período os artesãos
participavam de uma associação chamada “Uniflor”, assistindo palestras,
reuniões e eventos conduzidos pela Secretária da Cultura.
Onofre declara: “Antigamente era a Secretária da Cultura que
comandava e nos ajudava, hoje é a COMURB (Companhia de Urbanização), que nos
deixou cair no esquecimento.” O simpático senhor, relembra saudosamente a época
em que recebeu a carteirinha de associação ao PRODAP (Programa de
Desenvolvimento do Artesanato) e se sentiu extremamente grato ao receber esse
apoio e reconhecimento.
Em nosso bate-papo lhe pergunto um nome importante para o
artesanato no Brasil, ele me responde com clareza e satisfação: “Getúlio
Vargas!” Relata que em seu mandato, o presidente do Brasil apóia a cultura, os
artesões e autoriza a livre exposição de trabalhos manuais em qualquer lugar da
rua.
Onofre confessa possuir outra grande paixão, a qual também foi
apoiada e engrandecida por Vargas, a capoeira. O ex-presidente menciona a
capoeira ser o único esporte verdadeiramente nacional. Responsável pela criação
da “Capoeira Regional Baiana”, Manoel Machado dos Reis, conhecido como Mestre
Bimba é um dos melhores capoeiristas da época e com certeza, o grande ídolo de
Onofre, o artesão. Como bom conversador, a capoeira entra em pauta e descubro
outro dom do senhor. Praticante desde os 43 anos, conta que sempre há mais o
que aprender e os mestres sempre têm o que ensinar. Sem ter idade para praticar
e sentir-se vivo, Onofre treina semanalmente em um salão no bairro Santo Amaro
na cidade de Londrina.
Além de lutar a modalidade extremamente brasileira, produz
berimbau e afirma ser o único produtor do norte paranaense. O produtor
enfatiza a importância de preservarmos e só pegarmos aquilo que nos será útil.
“A natureza fornece toda a matéria prima, sem que eu precise cortar as
árvores”, Onofre comenta e ressalta fazer sempre o possível para contribuir com
a vida do nosso planeta.
Filho de pai músico, escuta reggae, Bezerra da Silva e Janis
Joplin para relaxar. Onofre aponta suas peças e me pergunta se reconheço uma
imitação. Digo que poderiam me enganar facilmente, pois meus olhos brilham pra
todas as peças, sem saber qual é feita a mão e qual é industrializada. O senhor
ri e me responde: “Moça, os leigos só descobrem uma imitação ao comprá-la e ter
a peça estragada em poucas vezes de uso. O que não acontece com a produzida a
mão.” Descubro que na Bahia existem maravilhosas peças, que deveriam ser
exportadas para conhecerem nossa riqueza lá fora. Assim como acontece no Peru,
que é o país que mais investe em exportação e desde cedo incentiva as crianças
a aprenderem a produzir.
Apaixonado pela arte e pelo seu trabalho, friza a importância em
sua vida quando conta não beber e não fumar, para não inverter os valores e
correr o risco que a arte perca seu espaço para vícios e outras coisas.
Um senhor com muito amor pela arte e pela vida que sabe
reconhecer os jovens aventureiros , que de passagem produzem e vendem
artesanatos. “São descompromissados, não respeitam a natureza e não amam o que
fazem” diz Onofre, diferenciando uns aos outros.
O artesão se incomoda com hippies que fumam maconha em local
público, pois generalizam todos eles, dando motivos para outras pessoas
reclamarem. Sendo o entrevistado, contra a legalização de drogas e também
contra o próprio uso, afirma: “A nóia mata os jovens, destrói as famílias. Sou
contra passeatas, legalização... começa na maconha e acaba no tráfico.” Fiquei
surpresa e contente com suas afirmações, afiadas e prontas para romper qualquer
rótulo que muitos possuem dos “ripongas” e naturalistas.
Aos seus sete anos de idade, o artesão começou a trabalhar com
seu pai na lavoura de café. Onofre acredita que seu pai foi sensato e colaborou
muito com sua futura independência e as experiências em sua vida. “A
criança deve se mexer, aprender e ajudar de maneira saudável, sem que a
prejudique e sobrecarregue. Se um pequeno não estiver aprendendo coisas boas,
coisas ruins ele saberá” diz o artesão, de forma poética.
Para o simpático senhor, é muito cômodo os jovens
continuarem roubando, utilizando drogas, perdendo os limites e matando,
enquanto os empregos de juízes, policiais, delegados são mantidos. Onofre
acredita na impossibilidade de mudanças enquanto o mais importante for o
dinheiro, vindo primeiro do amor, da saúde, do respeito e da paz.
Com seus 65 anos, o agradável senhor que estudou até a
oitava série, tem o grande sonho de memorizar sua paixão pelo artesanato e pela
capoeira em um livro. Durante um dia ao lado de um grande artista, pude sentir
a felicidade e gratificação de um homem que vive pela arte e sempre está para
aprender e conhecer mais do que a vida pode ensinar.

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